Vi um anjo hoje
Toquei-lhe no olhar
Deslizou no meu sentido
Passou por mim a correr
Deixou-me o cheiro
Cedeu-me a vontade…
Deu-me um pensamento…
Segui sul…
Não quero entrar neste lugar para perder…
Preciso então de acreditar
Sei que é um sonho…
Vi um anjo hoje…
Sem medo de me olhar
Tocou uma melodia nos meus olhos
Deixou-me feliz
Sereno…
Pensador…
Retirou-me do crepúsculo por uns tempos
Devolveu-me um sorriso…

Tempo do tempo
Que é tempo que quero
Para te conhecer
São as curiosidades do tempo
Que perco por não te ver
Passa por mim o tempo
Que se mostra desatento
Na onda do meu desencanto
Sou eu que passo pelo vento
Rápido… místico
Senhor do tempo…
Passo após passo num mundo que não vejo
Mas silenciosamente alcanço
Tenho sede
São os meus olhos…
Neste mundo deserto
Multidão descabida que me afasto
Desamarro-me deste mundo oscilante
E vejo-te como se te quisesse alcançar
Mas não sei como procurar
Ninguém me disse onde está escrito
Formula do tempo
Tempo do tempo
Tempo que se fez e se foi
Se faz e se mostra desatento
Para comigo este tempo
Não sei procurar-te no tempo
Leva-me com o vento…
Pelo tempo…

È bom ver-te quando te vejo
E não te vejo…
Quando te tenho e não te procuro
È bom sentir-te…
Ainda que no limite do tempo
Quando o sabor do teu cheiro
Se confunde com a saudade
E se esvanece da minha pele
Ardem os acordes do teu toque
Para me deixar sonhar
O véu ainda transparente do teu corpo
O segredo primitivo que me comanda
Pelo templo da minha alma
Pelos arredores do meu quarto…
Faz-me sentir-te não te sentindo
Querer-te não te querendo
Tocar-te não te tocando
Ver-te…
Sem te ver…

Perdi a noite no meu poema
Sem te alcançar
Não durmo mais hoje…
Posso vaguear por aqui de madrugada
Cruzar os abismos da minha mente
Sem te ter…
Os campos cercados do meu jardim
O qual já não vejo
Por onde andei
Deixo-me levar pelas incertezas
E a tua ausência não me deixa dormir
Nascem no chão as sementes desta solidão
Nunca mais chega o Verão
Refaço para mim de novo
O cheiro da tua pele
Para não me esquecer que existes
Choro um poema agora…
Passaram séculos de paixões
Pergunto-me se alguém me vê ou sente
Neste esconderijo secreto…
Retorno ao meu carreiro por onde passo
Marcado por tantos passos
Errante e desacompanhado…

Trago uma carta amarfanhada no meu bolso
Marcada com as letras do meu olhar
E a tristeza do meu sorriso
A tinta despojou no papel
As palavras do meu sentir
Estão borradas as palavras…
Trago-a rasgada nos cantos
De tantas vezes a reler
Finalmente consigo agora ver o mar
Por entre as ameias da cidade
E no mistério da noite os anjos calam-se
Num ritual solene
Embriagados pela melancolia do meu olhar
Como se me levantassem em silêncio
Para me embalarem num culto secreto
Nesta estrada distante ouço as marés
As verdadeiras marchas do oceano
Que se esbatem contra as rochas
Os novos sons são perseguidos
Pelo cheiro dos amantes
A areia oculta nesta madrugada
O segredo do meu sentir
Quase nem a sinto no meu canto de desespero
Fecho os olhos e releio a minha carta novamente
Desta vez acompanhado pela minha voz interior
Pois sabe a côr de todas as letras que pintei
Com o sangue da minha alma
Despojei-a assim…
Com o vigor da minha mão
E a coragem do meu aparo

Deixei a Lua hoje
E não sei o que me mantém agarrado aqui
Parece então que passaram séculos de silêncio
Sentado de frente para o mar
Estou aqui…
O meu rosto sujo toca o vento
Sei que em outros recantos já ouvi o mar…
Em outras terras também…
Contudo a recordação não me satisfaz
Preciso sentir a sua eterna presença
Fala-me ele em poucos sentidos
Contorna-se no meu ser
E despoja-se no meu olhar
Oceano misterioso
Antigo e contador de histórias
Verdadeiro sal da antiguidade
Oscila no meu ouvido a voz das sereias
Embalam-me neste momento
Para que me sinta real novamente
Ah… dá-me guarida neste dia
Sinto tamanha tristeza…
Talvez peça conselhos ás Tágides
Essas ninfas do Tejo
A quem Camões devolveu a eternidade

Faz tempo que não me prendia
Deixei-te prostrada na cabeceira
E a minha mão que por vezes teme em tocar-te
Esqueceu-se de ti por tempos
Simples aparo…
Nem a tinta secou…
E esse odor que tens
Ainda que por vezes cruel
Faz-me navegar por entre castelos de palha
Saudade de te pegar de novo
Dialogas comigo tempo inteiro por vezes
Encontro o meu refúgio pelas tuas linhas
Por vezes até as escondo por entre os meus papéis
Ah… serás, tão inanimada como dizem?
Por detrás de ti…
Escondes essa vaidade de saberes o que sou…
Tu és sim um bom confidente…