E houve um som todas as noites
Desde aquela noite
Que deixou o refrão dos teus olhos no meu sorriso
A capital do meu ser definiu o sonho
Este abismo secreto…
Corredor vasto de lembranças subtis
Percorri avidamente as paredes
Em busca do teu nome
Estava escrito afinal nas portas
Que não entrei…
Explorei intensamente o delirio dos teus olhos
Para saborear na eternidade da minha alma
Não nos ouviram?
Aqueles sons nocturnos
Nobres e distintos silêncios…
Que só nós sabemos pensar
Que ousámos ouvir e até criar
Somos aquelas vibrações que deixámos
Lá longe…
A voz de todas as cores
Longe do que somos hoje
Ruídos na noite…
Ofuscam a nossa escuridão
Desloco-me fugaz neste mundo transitório
Somos antigos demais para deixar voar o tempo
Que se agonia no mundo material…

Perde-se por vezes
Encontrado no tempo
Algumas gotas de suor lúgubre
Asfixiado lentamente na noite
O latir dos cães medrosos…
Foge por vezes a noção do equilíbrio
Da gente fina e sem jeito
Sombras de fel
Quadros de papel
Subo ao céu
Junto-me com os pássaros
Místicos irreais…
Levam-me para uma ou outra dimensão
Vou nu…
Voo assim leve
Escondo-me na noite
Para ninguém me ver sangrar
Distante a minha alma
Permanece ainda presente no tempo
Inundo-a no descontrolo deste voo
Não quero pousar
Agradeço aos deuses…
Por me darem a melhor memória da minha vida…

Rasguei algumas páginas hoje
Páginas tantas
Poemas loucos
Frases que de não ditas… desaparecem
Tornam-se imortais
Os silêncios…
Aqueles gritos calados
Rasguei-as e vi-as subir ao céu
As cinzas…
O cheiro rebelde queimado
Páginas quantas…
Páginas tantas…
Deixei-as voar… as palavras
Para de seguida as ver livres
Uma fogueira lancinante
Mas terrivelmente pura