Sacudo aquelas palavras
As minhas próprias palavras…
Radiantes e tenebrosas
Desfaço-me delas porque não as quero
É que ás vezes caio para não me levantar
Outras levanto-me para deixar de cair
Sacudo-me das frases inundadas
E desempregadas no seu todo
Deixem-me! Palavras…
Deixem-me sozinho por momentos
Porque em todo eu não cabem as palavras
Que não quero dizer…
A minha vida toda eu procurei-as
E agora não as quero…
Elas que me transportaram
E me deixaram…
Agora eu deixo-as
Sacudo-as…
Mato-as…
Quantos caminhos até as não ter
Quantas vidas até as não querer…

Posso chegar tarde esta noite
E ver-te dormir
Deitar-me ao teu lado
E sentir-te perto
Sentir-me completo
Mas tu não sabes que eu estou lá
Posso sentir o teu corpo esta noite
E guiar-me por entre as cortinas do teu rosto
E enquanto adormeço
Sinto o calor do teu abraço
Do teu corpo
Saboreio o suave murmúrio do teu cheiro
Que se espalha por mim
Sonho acordado neste delírio quase divino
E deixo-me levar pelo encanto deste sentido

É tarde e movo-me
Por entre as cortinas da minha mente
Olho o céu e tento não voar
Conto as horas para poder acordar
Uma vez mais transporto-me
Deixo-me levar por esta corrida
Encontro-me…
Desfaço-me em poucos pedaços
Esta noite há pessoas a dançar
As músicas tocam mas nenhuma é minha
Canto para mim
E envolvo-me num desencontro
Afastado do tempo
Sento-me aqui sem nada para fazer
E nem sequer uma ponta de silêncio
Para me fazer companhia hoje
Respiro este ar cansado e turbulento
Saudade do mar e do cheiro da areia
E esta folha de papel
A única coisa que tenho agora