Por vezes mais vale não sonhar
Para não cair em desarmonia com a vida
Porque sonhar nos dias de hoje
Parece o vazio que não leva a nada…
Um caminhante sem estrada
É pior do que um homem sem sonhos
E os sonhos esses ficam para os amantes
Para os casais e para as crianças
Não… os sonhos não são para os que procuram o amor
Sonhar não é amar…
E amar não é esperar pelos sonhos
Talvez seja viver dentro de um sonho
Talvez seja fundir-se com a pureza da própria harmonia
Não…
Não sonho mais, nem mais um segundo
Talvez tenha desistido
Já não sei amar também
Talvez então me tenha esquecido do amor em algum canto
E entristeço… entristeço quando me apetece
E que importa?
Ninguém se importa quando estamos sós
Tanto faz para os outros
A vida passa…
E os sonhos vão ficando pelo caminho
Pintados nas folhas,
Escritos nas árvores…
Nas paredes ou nos vidros embaciados dos carros
Mas neste vazio há sempre um resto de sonho
Talvez a cada momento que não amo
Lembro-me de algum sonho que sonhei
Merda!
Puta de vida que passa despercebida…
Rouba-me os sonhos em cada esquina
Merda, merda, merda…
Perco a esperança…
Enlouqueço…
Não quero o tormento do coração que não sabe amar
Não quero…

Quero ver-te
Olhar-te nos teus olhos com o meu silêncio
Quem sabe ouvir a tua voz
E dela retirar o teu sorriso intenso
Para me rir também
Queria ver-te nesta noite
Apenas para me deitar sossegado
E descansar em paz…
Ah… Sim apenas ver-te…
Talvez de longe
Bastava olhar-te…
Saber que estás bem
Sabia-me bem ver-te hoje
E ouvir-te…

Segredos…
Tantos e tão poucos
São meus também
Apetece-me desvenda-los…
Os segredos tão teus
Talvez na intimidade de um sorriso
No gesto do silêncio
Ou na presença de um olhar
Talvez no inicio da madrugada
Ah… Segredos…
Que seria deles sem um confidente
Que pernoita no silêncio da noite
Segredos tão secretamente guardados…

Nesta meia-noite que passa
Ouço o vento frio aqui fora
Entrego-me aos desafios da minha mente
Escrevo estes rabiscos numa mesa de madeira forte
E parto para um lugar mais quente
Quem sabe a praia do Sul
Parece que sinto o cheiro a maresia
E as gaivotas que costumam pousar na areia nua
O vento imagino-o mais quente
Finjo então que me sento
Nesta escada velha junto a um farol antigo
Ouço o mar que me fala mas que se zanga comigo
É que subitamente vejo passar um tempo que não é o meu
Nem sei o que sinto
Não me cabe a mim saber
Apenas desafio a minha mão
Que descreve sem sentido a minha alma
Estas palavras que não saem…
Mas que vão aparecendo timidamente
E de tanto pensar perdem-se…
Perdem-se talvez com o frio da noite
E esta meia-noite que passa
É mais uma meia-noite que de meia não tem nada
E é tão vazia como antigamente…
Tão carregada de horas vagas que não passam
Uma fria noite de Inverno que não passa
Gela-me tanto os dedos que não os sinto
E o meu corpo está todo frio, todo gelado
Assim como eu estou por dentro
Alma congelada que divaga
É só isso e mais nada…

Onde está aquele miúdo…
Que brincava e sorria
Aquele rapaz de cabelo louro quase branco
Talvez se tenha escondido com o tempo
Ás vezes aparecia e ria-se tanto
E o Verão parecia tão simples e puro
Tão sem medo, tão em paz
Onde está o sonho que foi o dele
Tão longe do tempo que passou
Onde está aquele miúdo que tinha medo do escuro
Escondia-se por trás do lençol
Talvez tenha crescido e sofrido
Vivido talvez…
Estou tão aqui
Observo o tempo que passa
Perpasso e passo a passo vou andando
E o tempo que passa tão fugaz deixa marca
Estou aqui…
Sou o menino já homem que quis ser
Ás vezes tento falar com o menino cá dentro
Busco o sonho ainda… Não me canso!
Mas não me reponde…
Sonho acordado, sonho tanto…
Sonho o mundo!
E sou tão voraz quando sonho!
De tão humano… Tão frágil…
Um homem menino ainda com medo do escuro
Estou aqui talvez por pouco tempo…
E quero tanto ver o mundo!
Que não me canso de procurar
Estou tão aqui… Não me vês…?
A poeira da vida ofuscou-me tanto…

A minha guitarra geme esta noite
Ao meu ouvido ouço os acordes suaves
Deleito-me com mais um tom
Um som…
Ela fala só para mim
Uma linguagem que só eu sei compreender
Toco-lhe onde ela sente mais prazer
Suspira ao meu ouvido
Um som que lhe quero dar
Deixo-a ecoar por estas paredes nuas
Frias e cruas…
Só eu sei a timidez com que ela vibra nas minhas mãos
A minha guitarra geme esta noite
E sobe um tom quando lhe toco
Grita um acorde afinado
A minha guitarra geme…
E este gemido que não cessa
Faz-me sentir acompanhado nestas noites de solidão